“Foi um momento da minha vida muito complicado. Chegou num ponto em que a dor era física e que eu não aguentava mais e que eu queria uma solução. E a solução que eu via era tentar me matar, me matar.”
Suicídio. Uma questão muito maior e mais próxima do que parece. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a cada quarenta segundos alguém se suicida. No Brasil, o Ministério da Saúde estima que, a cada hora, uma pessoa se mata e outras três tentam suicídio. Apesar desses números, o assunto é pouco debatido no País. A maioria das ocorrências não é noticiada pela imprensa, já que, segundo a OMS, um dos fatores que podem levar uma pessoa vulnerável a tirar a própria vida é a divulgação de casos de suicídio. Por isso, existem várias recomendações sobre como a mídia deve tratar o tema, por exemplo, não mostrar detalhes do método utilizado.
A série “Os 13 porquês”, produzida pela Netflix, recebeu críticas por não atender a essa e outras orientações. O seriado conta a história de uma adolescente de 17 anos que se mata. Maria Paula, que tentou suicídio em 2009, considera perigosa a forma como a série aborda o assunto. O nome foi alterado, e a voz, distorcida, para preservar a identidade da entrevistada. “A solução dela foi se matar. Então eu acho que apresenta o suicídio como uma solução, e isso eu acho perigoso, inclusive olhando pra mim, particularmente, era uma coisa que pra mim era uma solução. Eu não vejo o lado positivo disso.”
Para a presidente da Sociedade Pernambucana de Psiquiatria, Kátia Petribu, o seriado tem falhas, mas foi importante por chamar a atenção para o suicídio. “Certas cenas deveriam ter sido suprimidas, porque chamam pessoas que já estão deprimidas, pensando em se matar, a fazer o mesmo, já que a protagonista teve sucesso. Mas, por outro lado, trouxe à tona uma série de discussões sobre suicídio. Tem que ser realmente divulgado, debatido, porque é prevenido. É a terceira causa no Brasil de morte violenta entre os adolescentes.”
A produção foi lançada em 31 de março e, desde então, a procura pelo Centro de Valorização da Vida, o CVV, por por e-mail e pelo chat, ficou seis vezes maior. A entidade realiza atendimentos de apoio emocional e prevenção ao suicídio, por telefone e Internet. A coordenadora do CVV no Recife, Eliene Soares, enxerga o lado bom do crescimento da demanda. “É um reflexo positivo. Inclusive a Netflix procurou o CVV São Paulo e pediu permissão para usar a marca do CVV como fonte de busca para quem estivesse interessado. O CVV autorizou porque viu nisso uma grande oportunidade de pessoas que ainda não conhecem o serviço procurarem ajuda.”
Outro fenômeno entre os adolescentes, que contribuiu para aumentar a procura pelo CVV, é a Baleia Azul. O desafio, divulgado em grupos de redes sociais, estimula os participantes a cumprirem cinquenta tarefas, que vão da automutilação ao suicídio. Em todo o Brasil, pelo menos quatro mortes de jovens são investigadas, suspeitas de estarem relacionadas ao desafio. As tarefas seriam passadas por curadores.
Um projeto de lei que tramita na Câmara Federal propõe alterar o Marco Civil da Internet, para obrigar os provedores a retirarem da rede conteúdos que instiguem ou auxiliem o suicídio. Para o designer Leonardo Lima, do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife, o CESAR, a medida não é eficaz. “Você tem uma série de formas de burlar isso, você tem áreas da Internet que não são monitoradas. Quando você quer buscar um conteúdo, você consegue ter acesso a ele de diversas formas.”
A psicóloga escolar Ana Andrade Lima entende que o desafio serve de alerta, mas que o cuidado com os jovens deve ser constante. “A gente agora está falando disso, mas há várias outras situações a que as crianças e adolescentes estão vulneráveis. É preciso que essa prevenção e o combate também parta das relações afetivas, dos vínculos, do pertencimento. Porque ninguém vai entrar num tipo de jogo como esse estando bem. Então, do mesmo jeito que pode estar vulnerável ao jogo, pode estar vulnerável a outras situações de risco também, que precisam ser evitadas.”
Ana Andrade Lima defende o trabalho do psicólogo escolar nesse processo. “Uma conexão, entre família e escola, entre professor e aluno, podendo perceber que situações da vida dele podem estar interferindo ou nas relações sociais ou na aprendizagem.”
Se você precisa de ajuda, procure um psicólogo, psiquiatra ou entre em contato com o Centro de Valorização da Vida: ligue 141 ou acesse o site cvv.org.br.
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